sexta-feira, 1 de agosto de 2008

"A BELEZA SALVARÁ O MUNDO"

Conta-nos Alexandre Soljenitsyne que levou algum tempo a tentar perceber esta frase enigmática que, um dia, Dostoïevski deixou cair: "A beleza salvará o mundo".

Interpretou-a finalmente como
querendo significar que a beleza da arte, sobretudo da literatura, acabará por fascinar o mundo e convencê-lo da necessidade de refletir e de pôr em prática a profunda defesa dos valores da dignidade humana, sobretudo da verdade e da justiça, que os grandes autores sempre deixam inscrita no seu legado literário.

Recentemente, li a notícia de que as universidades americanas, conscientes do erro cometido por darem a primazia às tecnologias e à investigação do universo material, iam voltar ao estudo do humanismo, privilegiando o conhecimento da filosofia e da literatura.

Se refletirmos um pouco sobre o que é hoje a civilização ocidental, não será difícil chegar à conclusão do modo como a realidade material submerge a realidade espiritual.

A civilização do prazer e do lucro sobrepõe-se ao sacrifício de lutar contra as mentiras e os engodos de fanáticos e de oportunistas.

Soljenitsyne, que sofreu no corpo e na alma os horrores das massificações e das ilusões da luta de classes que, criando falsas utopias arrasaram, e continuam a arrasar, milhões de seres, preveniu-nos, com lucidez, contra os novos monstros que se transformam facilmente em degradação humana, genocídios, ditaduras cruéis, anulação do indivíduo.

Roger Martin du Gard publicou uma obra, "O Verão de 1914", em que alertava para a atmosfera angustiante que se viveu na Europa antes da mobilização para a 1.ª Grande Guerra Mundial, face à fraqueza dos governos de então, às suas hesitações, às suas indiscrições, às suas ambições inconfessáveis com a cumplicidade passiva das massas que acabariam por sofrer na pele os horrores que se seguiram (nove milhões de mortos e dez milhões de estropiados).

Mas, o homem, que continuou sem meditar a literatura, copiou os mesmos erros e desencadeou a 2.ª Guerra Mundial, com conseqüências mais gravosas ainda, teimando, no presente, em alimentar outros horrores um pouco por todo o mundo.

E continuamos sem ler nem apreciar a beleza da arte.

Assistimos à cavalgada do materialismo e à degradação cada vez mais abjeta da humanidade, com seu cortejo de obscenidades. Basta-nos referir o que se passa nas nossas televisões com as telenovelas e seus conteúdos mentirosos e outros programas ridículos de má língua, noticiários (!) incluídos, para percebermos o que é a concessão ao que de mais baixo e vil existe no homem desde o tempo das cavernas e que leva as novas gerações aos himalaias do gozo selvagem.

Num mundo sem literatura, não me espanta que continuemos indiferentes aos vários horrores que se vão repetindo, de que, o exemplo mais vivo e recente, é o do Zimbabwe, perante a covardia, a indiferença, a fraqueza e a inoperância de governos incompetentes, ignorantes da história, insensíveis aos valores humanos, hesitantes na defesa da dignidade humana.

Um mundo sem beleza é um mundo perdido, sem verdade nem justiça nem sentido. Alimentar a espiritualidade é libertar o Homem.

Resta-nos a esperança de que um próximo pesadelo acorde os políticos e os alerte para a urgente necessidade de reintroduzir nas escolas o estudo dos autores universais para que se cumpram as palavras de Dostoïevski e "a beleza acabe por salvar o mundo", destruindo a covardia e o medo.

Leonel Marcelino

Fontes:
http://www.regiao-sul.pt/noticia.php?refnoticia=86097
http://groups.google.com.br/group/sapientiae

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Sofrer faz parte da vida

Sofrer faz parte da vida. Porém, só você pode decidir o quanto se permite sofrer e por quanto tempo. É normal que se sofra quando algo ruim nos acontece.
Afinal, somos humanos e temos sentimentos, emoções. Precisamos efetivamente chorar as perdas que acontecem em nossas vidas. Mas não devemos sofrer eternamente, seja lá pelo motivo que for. A vida é transformação constante e, por isso, tudo tem de passar.

Nada pode ter apretensão de durar para sempre.Todas as nossas provações, todos os nossos sofrimentos têm uma razão de ser.E, quanto cumprida essa razão, deixam de ser necessários. Então, é chegada a hora de abrir mão deles, é preciso seguir adiante, partir para outra. Não estou menos prezando o seu sofrimento, nem tentando dizer que sua dor não existe, ou que não tem sentido.

Apenas quero lhe dizer para viver tão intensamente a sua dor quanto for necessário, mas depois deixá-la ir. E voltar a viver sua vida com alegria. A vida não nos exige sacrifícios infundados e tolos. A vida apenas nos dá elementos para aprimorarmos a nossa percepção e descobrir as nossas potencialidades. Quando compreendemos isso, a dor passa a ser um elemento natural em nossa vida e nos tornamos capazes de lidar melhor com ela."Você já aprendeu a atravessar paredes?

É fácil atravessar paredes, desde que você saiba onde está a porta". (Roberto Shinyashiki). Observe ao redor e descubra as portas que o conduzem para onde você quer ir. E livre-se do sofrimento o quanto antes. Esse é o sentido real de "ser feliz". A felicidade consiste em saber que as portas existem e confiar que, tendo-se uma atitude correta, no momento certo elas se abrirão. E as portas serão tão amplas quanto a esperança que existir em seu coração.

Não se atravessam paredes com força bruta e atitudes impensadas. Mas, sim, com ponderação, aceitação, paciência, preparo e determinação. Não se atravessa um período de dor com desespero e apego infinito ao sofrimento. Mas, sim, com ponderação, aceitação, paciência, preparo edeterminação. Sofrer faz parte da vida. E, como tudo na vida, o sofrimento também passa.
Gilberto Cabeggi


sexta-feira, 4 de julho de 2008

Os olhos da cara

Quem é escravo da repetição está condenado a virar cadáver antes da hora. A única maneira de sermos idosos sem envelhecer é não nos opormos a novos comportamentos, é termos disposição para guinadas.

Recentemente participei de um evento profissional só para o público feminino. Era um bate-papo com uma platéia composta de umas 250 mulheres de todas as raças, credos e idades. Principalmente idades. Lá pelas tantas fui questionada sobre a minha, e como não me envergonho dela, respondi. Foi um momento inesquecível. A platéia inteira fez um “oooohh” de descrédito. E quando eu disse que, até aqui, ainda não enfiei uma única agulha no rosto ou no corpo, foi mais emocionante ainda: “oooooooooooooooohhhhhh”. Aí fiquei pensando: pô, estou nesse auditório há quase uma hora exibindo minha incrível e sensacional inteligência, e a única coisa que provocou uma reação calorosa na mulherada foi o fato de eu não aparentar a idade que tenho. Onde é que nós estamos?

Onde não sei, mas estamos correndo atrás de algo caquético chamado “juventude eterna”. Estão todos em busca da reversão do tempo, e com sucesso: quanto mais ele passa, mais moços ficamos. O.k., acho ótimo, porque decrepitude também não é meu sonho de consumo, mas cirurgias estéticas não dão conta desse assunto sozinhas. Há um outro truque que faz com que continuemos a ser chamadas de senhoritas mesmo em idade avançada. A fonte da juventude chama-se mudança. Eu sei disso, você sabe, e a escritora Betty Milan também, tanto que enfatizou essa frase em seu mais recente livro, Quando Paris Cintila. De fato, quem é escravo da repetição está condenado a virar cadáver antes da hora. A única maneira de sermos idosos sem envelhecer é não nos opormos a novos comportamentos, é termos disposição para guinadas. É assim que se morre jovem, sem precisar ter o mesmo destino de um James Dean ou de uma Marylin Monroe. Eu pretendo morrer jovem aos 120 anos.

Mudança, o que vem a ser tal coisa?

Minha mãe recentemente mudou-se do apartamento em que morou a vida toda para um bem menorzinho. Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras que havia guardado, e mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, rejuvenesceu. Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos de idade. Rejuvenesceu. Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um ótimo emprego em Porto Alegre por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela caminha na beira da praia todas as manhãs. Rejuvenesceu.

Toda mudança cobra um alto preço emocional. Antes de tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza. Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face.

Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna. Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco, porque não existe plástica que resgate seu brilho. O que dá brilho ao nosso olhar é a vida que a gente optou por levar. Um olhar iluminado, vivo e sagaz impede que a pessoa envelheça. Olhe-se no espelho. Você tem um olhar de quem estaria disposta a cometer loucuras? Tem que ter.

E aí pode abrir o jogo, contar a verdade: tenho 39, 46, 57, 78 anos! Ooooooohhhhh. Uma guria.

Martha Medeiros
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 15619, 1/6/2008.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

A SÍNDROME DA LOJA DE DOCES

"A síndrome da loja de doces acaba com a sua felicidade"
Frase de Young Bravescotch

No momento em que escrevo, estamos na semana "dos namorados", no Brasil. Então, acho interessante responder algumas dúvidas que sempre me chegam, sobre o tema do relacionamento entre duas pessoas.

A resposta surgiu durante um evento especial com Rosana Braga (www.rosanabraga.com.br).


Por que temos tamanha dificuldade em manter o compromisso de amor com uma única pessoa por longos períodos?

Escutei a pergunta e as várias tentativas de respostas naquele evento. Algumas interessantes. Outras, completamente absurdas.

A mesa estava completa. Apenas dois homens (eu e um ator muito conhecido) e dez ou onze mulheres. Em um lado da mesa, estava a autora e palestrante Rosana Braga, que atuava como facilitadora, para que aquele grupo chegasse sozinho as próprias conclusões.


Era um encontro no qual Rosana coloca um tema para discussão e vai acompanhando o grupo para que não se percam. Mas ela não interfere, nas conclusões do grupo.

Eu fui convidado por apresentar um workshop, com ela, e poderia captar algo interessante durante o encontro. E foi o que aconteceu.

Durante certo tempo, escutei constrangido opiniões sem nenhum sentido, cheias das obviedades que escutamos todos os dias - do tipo "homem é tudo igual", "o amor é uma ilusão", "eu sou livre e quero permanecer livre", a pessoa que me quiser terá que me aceitar exatamente como eu sou"... e um amontoado de curiosos lugares-comuns.

Eu já estava começando a achar que não havia muito que aprender ali até que uma moça disse de maneira bastante clara: "o problema do amor é a síndrome da loja de doces".
Minha atenção foi chamada imediatamente. E a atenção do grupo todo.

Síndrome da loja de doces? "O que é isso", perguntei?
E durante quase 30 minutos o grupo se envolveu em um acalorado e interessante debate, até que algumas coisas ficaram muito claras:

1. Por que namoros, casamentos e vidas de um casal têm duração estatisticamente muito mais longa no interior (de qualquer país) do que nas capitais?


2. Por que algumas pessoas têm tamanha dificuldade em manter relacionamentos consistentemente longos?


3. Por que parece haver sempre alguém "mais perfeito" para nós? - especialmente alguém diferente da pessoa com a qual estamos?


Estas e inúmeras outras questões podem ser respondidas simplesmente analisando a "síndrome da loja de doces".

Veja que interessante:
Quando entramos em uma loja de doces, imediatamente nossa atenção é chamada para... o primeiro doce que aparece. Então damos uma bela olhada na vitrine e um dos doces chama nossa atenção. Depois de alguns segundos, outro doce, de aparência igualmente deliciosa, também chama nossa atenção. Mesmo quando estamos já na metade do primeiro doce, os olhos continuam a olhar as vitrines. E a dúvida surge. Não seria melhor ter escolhido aquele outro? Parece mais gostoso. Parece melhor para minha saúde. Parece... perfeito para mim agora. Neste momento, alguns de nós simplesmente pensam: "se eu entrar aqui outra vez, escolherei aquele doce para experimentar". Outros testam o segundo doce, mesmo antes de terminar o primeiro. Há, ainda, os que -- enquanto estão no segundo doce - já começam a olhar para o terceiro...

Já deu para entender, não é?
A única coisa pior do que não ter opções é ter opções demais. Isso explica a síndrome de excesso de peso nas populações de regiões economicamente melhores, assim como explica o excesso de divórcios, separações e lágrimas nas regiões supostamente mais “modernas”.

Sempre há um doce melhor na loja. Testar todos os doces é o melhor modo de não ficar com nenhum muito tempo.
Por isso, você precisa entender que nunca vai encontrar alguém que seja superior em tudo. Todos nós somos superiores em determinadas áreas da vida, mas sempre haverá alguém melhor que nós, em algum lugar. Sempre. Um homem ou mulher mais saudável, com mais riquezas, mais beleza, mais sensibilidade e mais qualquer coisa que você pense.

Não importa o que esteja em sua cabeça agora, sempre haverá alguém que tenha pelo menos uma dessas características em maior grau.


Mas há um problema. Raramente uma característica mantém o relacionamento e o compromisso por muito tempo. São necessárias diversas características complementares e o compromisso de ficar com essas características mesmo quando surge alguém que seja superior em uma, ou algumas, delas.
Porque se você cair no golpe que a publicidade adora dar nas pessoas, vai achar que o importante é testar os doces, para escolher o melhor. Enquanto isso, o melhor vai azedar e você acabara perdendo-o.

A vida não é uma loja de doces. E, se for, lembre-se de que quem tudo quer, tudo perde.

Escolha o doce e pare de comparar o tempo todo com outros. A comparação deve acontecer antes da escolha, com muito cuidado. Quem compara, depois, sempre sente que está perdendo algo. Quem sente isso, se comporta para deixar de perder e, ironicamente, acaba perdendo algo ainda melhor.


Feliz dia dos namorados. E bom doce, para você.


Aldo Novak

autor do livro O Segredo Para Realizar Seus Sonhos, da editora Ediouro (http://www.OSegredoParaSeusSonhos.com.br/ )

quinta-feira, 5 de junho de 2008

ELOGIO AOS IDIOTAS

A idiotice tem várias facetas. Há espertalhões, por exemplo, que para não serem considerados burros aplaudem o que não entendem e há pessoas geniais – como Eistein – que passam por idiotas. A verdade é que os idiotas, como os sábios, tentam sempre, sem medo de errar.

Na vida acelerada do mundo de hoje, todos querem ser espertos, vivos e astuciosos. Ninguém quer ficar para trás – quando você está indo, os outros já estão voltando. Ninguém mais diz frases com segundas intenções: dizem coisas com terceiras, quartas e quintas intenções. Frases que, com sorte, um leigo demora de dez a 30 minutos para decifrar, e até dois dias para imaginar uma resposta à altura.

Em compensação, alguém que diz diretamente aquilo que pensa acaba provocando escândalo e mal-estar. É imediatamente catalogado como perigoso e tratado como idiota. A sinceridade parece contrariar as normas da convivência e da boa educação modernas. Assim, as pessoas bem-educadas são amáveis, mas nem sempre se deve acreditar no que dizem.

A idiotice é um tema vasto, com muitos aspectos diferentes, que sempre esteve presente na minha vida e está inscrita com destaque na cultura brasileira. Um exemplo disso são as tradi-cionais piadas de português. Elas são uma projeção da brasilidade. No fundo, os portugueses idiotas das piadas somos nós. Os episódios que envolvem Manuel, Joaquim e Maria são todos uma parte da alma do nosso país – tanto é assim que só são conhe-cidos no Brasil. Em Portugal, ao contrário, circulam piadas de brasileiros.

É certo que, quando examinamos a questão da inteligência e da idiotice, surgem algumas perguntas indiscretas: o que é, afinal, inteligência? O que é burrice? Quantos tipos há de idiotas?

Inteligência é a capacidade de perceber o real. E, como há realidades muito diferentes no mundo, não existe um tipo único de inteligência. Cada situação da vida requer um tipo específico de percepção, e por isso as inteligências são múltiplas. Por sua vez, a idiotice e a burrice podem ser definidas como a incapacidade de perceber o real. E são tão variadas quanto as inteligências. Há, portanto, muitos tipos de idiotas. Alguns deles, inclusive, são espertalhões. Sim, há idiotas que passam por inteligentes, e também há pessoas inteligentes que passam por idiotas.

Além disso, quem é inteligente em uma área da vida pode ser burro em outras. Você é esperto em política e burro na hora de jogar futebol. Sua namorada pode ser menos intelectual que você, na hora de discutir filosofia, mas há aspectos da vida em que ela coloca você no chinelo. Há coisas que seus filhos pequenos fazem bem melhor que você, como, talvez, compreender as sutilezas de um videogame ou computador. Felizmente, ter sabedoria não é saber tudo. Ter sabedoria é saber o mais importante – e administrar bem os seus talentos.

Dos muitos tipos de idiotas, um dos mais interessantes foi examinado por François Rabelais, o escritor francês do século 16. Ele abordou a burrice específica dos "doutores" que usam palavras complicadas para não dizer coisa alguma. Um deles – conta Rabelais – fez certo dia uma longa pesquisa para saber "se uma entidade imaginária, zumbindo no vácuo, é capaz de devorar segundas intenções". Outro queria saber "se uma idéia platônica, dirigindo-se para a direita sob o orifício do caos, poderia afastar os átomos de Demócrito". Um terceiro investigava "se a frigidez hibernal dos antípodas, passando numa linha ortogonal através da homogênea solidez do centro, podia, por uma delicada antiperístase, aquecer a convexidade dos nossos calcanhares". Rabelais qualifica tais idiotas eruditos como professores cegos de discípulos cegos, "que tateiam em um quarto escuro à procura de um gato preto que não está lá".(1) Tais indivíduos eram precursores de Rolando Lero, o grande erudito da televisão brasileira.

Conheço seres humanos que têm tanto medo de parecer burros que aplaudem – ou pelo menos fingem que compreendem – esse tipo de raciocínio longo, encaracolado, sem significado algum. Mas tal constrangimento é desnecessário: deixando de lado o medo de parecer idiotas, perderemos menos tempo fingindo e seremos mais felizes.

O caso de um dos maiores gênios da ciência, Albert Einstein, é ilustrativo. No início da vida, ele recusou-se a falar antes dos 3 anos de idade. Seus pais, pessoas sensatas, pensavam que fosse retardado mental. Mais tarde, quando Einstein ingressou na escola, ele foi novamente considerado imbecil. Seu biógrafo é obrigado a admitir:

"Para os colegas de classe, Albert era uma anomalia que não demonstrava interesse nenhum pelos esportes. Para os professores, era um idiota que não conseguia decorar nada e se comportava de modo estranho. Em vez de responder imediatamente a uma pergunta, como os outros alunos, sempre hesitava. E, quando respondia, movia os lábios em silêncio, repetindo as palavras." (2)

Décadas mais tarde, Einstein deu o troco. Ele qualificou o nosso moderno sistema educacional como uma estrutura que reprime a inteligência e busca fabricar idiotas obedientes:

"A humilhação e a opressão mental imposta por professores ignorantes e pretensiosos causam danos terríveis na mente jovem; danos que não podem ser reparados e que geralmente exercem influências maléficas na vida futura." E ainda: "A maioria dos professores perde tempo fazendo perguntas para descobrir o que o aluno não sabe, quando a verdadeira arte consiste em descobrir o que o aluno sabe ou é capaz de saber." (3) Por isso Mark Twain escreveu: "Nunca permiti que a escola atrapalhasse meus estudos." E George Bernard Shaw admitiu: "Em determinado momento, interrompi meus estudos para ingressar na universidade." É verdade que, desde então, o sistema educacional já melhorou um pouco. Mas deve melhorar mais.

Einstein não estava só ao ser considerado idiota. Quando jovem, o pensador indiano Jiddu Krishnamurti também despertou fortes suspeitas de que era um débil mental. Durante 50 anos, no século 20, ele deu palestras no mundo todo, e teve dezenas de livros importantes publicados em várias línguas. Mas nos seus primeiros anos de estudante, na Índia, Krishnamurti era incapaz de acompanhar os estudos. Não memorizava nada, detestava os livros e ficava horas observando a evolução das nuvens no céu, ou acompanhando a vida de plantas ou insetos.

De fato, o santo e o idiota têm muito em comum, não só entre si, mas também com as árvores e os animais. Todos eles vivem em um estado de comunhão que é independente do pensamento lógico. Isso contraria a inteligência situada no hemisfério cerebral esquerdo, que rotula e classifica todas as coisas. Essa inteligência gosta de colocar-se como se tivesse o monopólio da consciência. Esse, aliás, é um dos grandes obstáculos para a prática da meditação: a mente pensante não aceita passar o poder à mente que contempla e compreende a verdade sem necessidade de pensamentos.

ALÉM DAS APARÊNCIAS
A primeira frase dos famosos Ioga Sutras de Patañjali, o tratado milenar sobre raja ioga, afirma: "Ioga é a cessação das modificações da mente." Para alcançar a hiperconsciência, o estado mental do êxtase divino, é necessário paralisar por um momento a mente infe-rior. O sábio é um ser que renunciou à inteligência convencional e optou por uma percepção que a mente comum não consegue captar. Por isso, mesmo na sociedade brasileira do século 21, se aquele que ingressa no caminho espiritual não tiver certos cuidados, pode ser considerado louco, ou idiota, pelos seus parentes e amigos. Mas, do ponto de vista do sábio, a situação se inverte e idiota é aquele que fica preso à lógica do mundo externo.

A ciência parece reforçar o ponto de vista do sábio ao afirmar que, realmente, usamos uma parcela muito pequena do potencial disponível em nosso cérebro. Esse é um dado da natureza, e não adianta discutir com a realidade. O problema não é, pois, que sejamos um tanto limitados mentalmente. O lamentável é que, sendo limitados, nos consideramos extremamente espertos. O filósofo Sócrates, escolhido como o homem mais sábio da Grécia, explicou: "Eu e os homens notáveis de Atenas nada sabemos, e a única diferença entre eu e eles é que eu, nada sabendo, sei que nada sei, enquanto eles, nada sabendo, pensam que sabem muito."

Há um fato que nem sequer os livros de inteligência emocional confessam abertamente: quando se desperta a inteligência espiritual, perde-se, irremediavelmente, a inteligência astuciosa que permite coisas como mentir com habilidade, usar a lisonja na medida certa e falar a verdade só quando ela traz vantagens.

Daí vem a sensação de nada saber diante do mundo. A expansão mística da consciência traz consigo uma inocência idiota em relação à realidade externa, e é por isso que os sábios renunciam à agitação, preferindo uma vida retirada. Para alcançar a consciência celestial, é necessário abandonar e perder a inteligência egoísta e assumir, em certos assuntos, a aparência de um abobado.

O escritor sufi Idries Shah – um pensador místico do islamismo – escreveu um livro intitulado A Sabedoria dos Idiotas. Na abertura da obra, explicou:

"Aquilo que os homens de pensamento estreito imaginam que seja sabedoria é freqüentemente considerado loucura pelos sábios sufis. Assim os sufis, por sua vez, chamam a si mesmos de 'idiotas'. Por uma feliz coincidência, a palavra árabe que significa 'santo' (wali) tem a mesma equivalência numérica que a palavra que significa 'idiota' (balid). Assim, temos dois motivos para ver os grandes sufis como os nossos idiotas." (4)

Todo aprendiz da arte de viver deve libertar-se das chantagens emocionais do que é "politicamente correto" e deixar de lado os mecanismos da idiotice coletiva organizada, que forçam a formação de consensos falsos com base em esquemas de poder.

Mas para fugir da idiotice coletiva organizada – com sua psicologia de rebanho que proíbe o indivíduo de pensar por si mesmo – é indispensável vencer o medo de que nos seja colocado o rótulo de ovelha negra, ou de idiota. Só assim poderemos viver com responsabilidade própria e independência pessoal, duas características de uma vida valiosa. Há uma história de Ramakrishna, o sábio indiano do século 19, que ilustra bem esse ponto:

"Era uma noite completamente escura, séculos atrás. De repente, um sujeito acende uma tocha para iluminar seu caminho e vai até a casa do vizinho. Ele quer pedir fogo, porque a noite está demasiado escura. Depois de muito gritar e bater na porta, o vizinho finalmente abre a porta, ouve seu pedido e responde: 'Ah, ah, você é muito imbecil! Raciocine! Você tem uma tocha acesa na sua mão!' "

A moral da história é que todos nós corremos o risco de fazer como o pobre coitado que bateu na porta do vizinho. A verdade eterna e a fonte da felicidade estão em nossas próprias mãos. Só dependem de nós. Mas às vezes insistimos em procurá-las nas coisas externas e pedi-las a outras pessoas, renunciando à autonomia da nossa caminhada.

Os sábios, como os idiotas, são íntegros. Eles não fingem que são inteligentes e não têm medo de errar. Tentam, erram e quebram a cara. Mas, quando acertam, são geniais. O idiota de hoje pode ser o sábio de amanhã, graças à experiência adquirida. Em compensação, aquele que não possui ânimo para tentar não tem chance alguma de aprender.

Por isso devemos criar uma cultura em que é permitido a cada um cair e levantar livremente. Porque somos todos apenas aprendizes. Erramos e aprendemos o tempo todo, e devemos estimular em cada ser humano a coragem de buscar – mesmo tropeçando – os seus sonhos mais elevados. Banindo da nossa cultura o medo do ridículo, cada um se permitirá um pouco mais de deselegância – e de autenticidade – em sua maneira de viver.
Por Carlos Cardoso Aveline
Fonte: http://www.terra.com.br/planetanaweb/


Notas
(1) Vidas de Grandes Romancistas, por Henry Thomas e Dana Lee Thomas, Editora Globo, RJ-POA-SP, 1954. Ver p. 32.
(2) Einstein, a Ciência da Vida, uma biografia escrita por Denis Brian, Editora Ática, SP, 1998. Ver pp. 1, 3 e 4. (3) Assim Falou Einstein, coletânea editada por Alice Calaprice, Ed. Civilização Brasileira, RJ, 1998. Ver pp. 64 (primeira frase da citação) e 63 (segunda frase).(4) Wisdom of the Idiots, Idries Shah, The Octagon Press, Londres, 1991. Ver p. 5.

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sábado, 31 de maio de 2008

O que é ser bondoso para si mesmo?

“Seja gentil. Seja bondoso para com o próximo”.Você já deve ter lido muito isso ou ouvido falar essas palavras. Porém, o ensinamento do yoga diz: Seja bondoso para consigo mesmo em primeiro lugar.
Muitas pessoas dizem que sabem praticar o bem ao próximo, mas não sabem como ser bondosas para com elas mesmas.
É realmente importante ser bondoso para com os outros, mas, geralmente, as pessoas se esquecem de que também é muito importante serem bondosas para com elas mesmas.

Vamos contemplar:

O que é ser bondoso para si mesmo?
Ser bondoso consigo mesmo é se respeitar, ter consideração consigo mesmo. É cultivar emoções positivas, ter uma mente tranqüila, gentil, silenciosa, com autodomínio.
Para a medicina chinesa, as emoções interferem no funcionamento do organismo. Cada emoção rege um órgão e este nutre uma estrutura. A tristeza, por exemplo, está associada ao pulmão que tem ligação com a pele. Assim, quem se sente triste perde o frescor da pele, pode adoecer de pneumonia, rinite, alergia e herpes.
Quando você sente raiva e guarda mágoas, você se sente mal e prejudica a si mesmo.
Em pesquisas na Universidade de Harvard, cientistas descobriram que quando uma pessoa se encoleriza, forma-se toxina no sangue, causando mal-estar. É como se envenenar.
Então, sem se dar conta disso, a pessoa se torna seu próprio inimigo, sendo má para si mesma. E, às vezes, ela se justifica dizendo que sentiu raiva porque o outro é ruim ou fez algo errado.
Quando diz algo desaforado ou fala mal dos outros, a própria pessoa fica emocionalmente perturbada. As vibrações negativas dos insultos ficarão gravadas em seu interior, pois as emoções negativas são como os piores inimigos.
Então, contemple isso: Por que se prejudicar se o outro errou? Por que guardar ressentimentos e acabar com a paz de sua mente?
Sentir raiva é humano, mas uma pessoa evoluída tem pouca raiva e não fica guardando essa raiva, remoendo com seus pensamentos.
Quando sentir raiva, deve esquecê-la rapidamente, porque quanto mais se lembrar dela, mais ela queimará seu coração, fazendo mal para sua saúde, trazendo também inquietude interior.
Não durma com raiva, nem conserve sua raiva para o dia seguinte. Procure limpar seu coração. Não fique relembrando o que aconteceu, o que o outro disse ou fez, pois ao fazer isso, você é que está fazendo mal a si mesmo. O outro pode nem estar sofrendo, mas você está se sentindo infeliz.
Como disse Swami Sivananda: “Ataques violentos de mau humor produzem danos sérios nas células do cérebro, espalham produtos químicos venenosos no sangue, causam depressão, suprimem a secreção dos sucos gástricos, a bílis e outros, nos canais digestivos, esgotam sua energia e vitalidade, provocam velhice prematura e encurtam a vida”.
Quando você se zanga, sua mente fica perturbada. Assim também, quando sua mente se perturba, seu corpo sente distúrbios e todo seu sistema nervoso se agita.
Na Bhagavad Gita, um livro sagrado do yoga, Krishna diz: “Oh! Arjuna, deixe de pensar em seus inimigos externos. Em vez disso, conquiste seus inimigos internos”.
Entenda que muitos conflitos entre pais e filhos, brigas conjugais, inimizades surgem do ego negativo, da teimosia, do egoísmo, das emoções negativas como ciúme e raiva.
Sorria mais, agradeça, não guarde mágoas, nem viva com raiva. Quando você tem atitudes como essas e busca o equilíbrio adquire mais saúde e mais alegria.
Pense em alguém como sendo um amigo e isso começa a se tornar realidade. Controle os venenos da mente pelo amor e pela razão. Seja bondoso com você mesmo.
Fique em paz!
Deus em mim saúda Deus em você!

por Emilce Shrividya Starling

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Por que as atitudes da pessoa amada irritam tanto você?!

É estranho e paradoxal: ao mesmo tempo que amamos muito uma pessoa, com o passar do tempo as suas atitudes passam a nos irritar e nos incomodar demais. Perdemos a paciência facilmente e passamos a tratá-la com grosserias, pouca compreensão e até uma certa raiva...

Com as pessoas estranhas ou colegas de trabalho parece não acontecer o mesmo! Costumamos ter mais cautela e medir mais as palavras na hora de expressarmos algum descontentamento. Mas com a pessoa amada, rasgamos o verbo, xingamos e até ofendemos. Por quê?

Carl Jung, um dos precursores da psicanálise, já defendia a idéia de que o casamento (ou qualquer relacionamento íntimo e constante) é o tipo de relação na qual mais rapidamente podemos enxergar nossos próprios defeitos. Ou seja, a convivência com a pessoa amada é uma relação tão íntima, tão profunda e tão reveladora que, aos poucos, esta pessoa passa a “apontar” - consciente ou inconscientemente - nossos piores defeitos, nossas maiores limitações. E, convenhamos: isso é realmente irritante!

Mas, por outro lado, é também uma ótima e eficiente oportunidade de descobrirmos e admitirmos nossos erros para que possamos melhorar, crescer e nos transformar em pessoas melhores, mais inteiras e maduras. Além disso, se pararmos para analisar, poderíamos nos perguntar por que determinadas atitudes de nosso parceiro passam a ser tão “imperdoável” aos nossos olhos! Por que nos sentimos tão agredidos, ofendidos e desrespeitados por esta pessoa que, teoricamente, seria a que mais deveria nos agradar?

Será que, na verdade, o que nos irrita não é o fato de descobrirmos em nós mesmos esta falta de compreensão, de humor, de disposição, paciência e colaboração? Será que as cobranças da pessoa amada não recaem exatamente sobre nossas limitações, nos mostrando o quanto precisamos melhorar em algum ponto que tentamos ignorar a vida inteira?

É bem provável que seja justamente esta pessoa (para quem entregamos nosso coração, revelamos nossos segredos e confessamos nossos medos), a dona de uma cópia do mapa de nossos caminhos mais escuros, mais feios e mais desinteressantes... E, portanto, seja ela que esteja o tempo todo nos mostrando e nos lembrando sobre as características de nossa personalidade que mais tentamos esquecer ou mascarar. E, assim, inconformados com este “poder” que nós mesmos demos a ela, passamos a sentir raiva de suas atitudes e até dela mesma.

Mas, se conseguirmos enxergar estas situações irritantes como uma oportunidade de crescimento, talvez pudéssemos ser mais pacientes com a pessoa amada e “usá-la” como uma amiga, uma aliada, uma parceira no difícil e doloroso caminho da vida. E mais: também começaríamos a ser mais cautelosos e solidários para com esta pessoa quando fosse a nossa vez de criticá-la, de cobrá-la, de apontar os seus erros e espezinhar sobre suas limitações.
Sim! Porque não é somente o nosso parceiro que faz isso conosco. Nós também fazemos isso com a pessoa que, por sua vez, está contando com o nosso amor, a nossa amizade, um abraço, um conforto, qualquer forma de acolhimento...

Enfim, devemos saber – e nos lembrar sempre – de que o amor é um sentimento maravilhoso e que pode transformar a nossa vida numa grande alegria. Mas é também um grande mestre! Quando constituímos um relacionamento em nome do amor, devemos estar preparados para o crescimento que ele exige de cada um de nós! Se encararmos as dificuldades como empecilhos ou obstáculos, certamente este amor ruirá. Mas, se soubermos enxergar as situações difíceis como preciosas oportunidades de aprendizado, estou certa de que o amor só tende a se fortalecer.
Para isso, no entanto, precisamos ser humildes o bastante para aprendermos com a pessoa que amamos, para reconhecermos nela um ser humano com qualidades diferentes das nossas, com uma sabedoria particular, que pode acrescentar muitas lições à nossa vida. E assim, dispostos a reconhecer nossos defeitos e a ter compaixão pelo outro, poderemos transformar a nossa relação de amor numa maravilhosa oportunidade de evolução!
Rosana Braga

Rosana Braga é Escritora, Jornalista e Consultora em Relacionamentos Palestrante
e Autora dos livros "Alma Gêmea - Segredos de um Encontro"
e "Amor - sem regras para viver", entre outros.
www.rosanabraga.com.br
Email: rosanabraga@rosanabraga.com.br

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